domingo, 27 de dezembro de 2009

(res)pingou aqui [dos 140 caracteres]



s i n t o   q u e   c h u v a   v e m. 
q u e   o   v e n t o   t r a z   p r o   m e u   c o r a ç ã o   e   v a i. 
q u e   n a   v e n t a n i a   v e m   p i n g o   f o r t e   l a v a r   a   m á g o a   q u e   d o   m e u   p e i to   s a i.


¬ P. Quintão

domingo, 20 de dezembro de 2009

Teimosa insistência

Padarias e bancas de jornais ainda madrugam.
Avenidas e ruas ainda sofrem com o trânsito carregado.
Violência ainda assusta.
Trabalhadores ainda lutam para ter salário final do mês.
Casais ainda se separam.
Pais ainda erram com os filhos.
Filhos ainda crescem num mundo cada vez mais intragável.
Sol e Lua ainda comparecem dia após dia, mesmo sob nuvens.
Flor ainda desabrocha na primavera.
Neve ainda cai no inverno.
Geleiras ainda derretem o ano inteiro.
Ciência e tecnologia ainda avançam.
Bancos ainda lucram.
Religiões ainda em guerra.
Chuvas ainda alagam.
Terremotos ainda desabam.
Fome ainda mata.
Ódio ainda cresce.
Amor ainda prevalece.
Ajuda ainda chega.
Solidariedade ainda alivia.
Esperança ainda é a última que morre.
Humanos ainda erram.
Dignos ainda merecem.
E eu ainda romantizo com facilidade.




¬ P. Quintão

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Tempo tanto tempo


Badaladas embalam os badalos das baladas.
É assim que pendulam os minutos minuciosamente vividos.
Dançadamente, ponteiros rodopiam.
Gira, menina, quero ver você passar...


Já faz 3 horas e 20 anos que danço com o cuco. 


¬ P. Quintão

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Meu engano


Parecia tão perto...
Pensei tocar, achei ouvir
Cheguei sonhar, sonhei beijar
Auto-engano, lindo engano
Estava tão longe que nunca esteve
Um coração bate forte quando encontra...
O meu ainda é sossego
Por vezes, pula, salta, palpita
Mas batidas, nunca
Auto-engano, ledo engano

¬ P. Quintão

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Rotina [quase uma novela mexicana :p]



Não tiveram uma longa conversa que justificasse o fim. Nem mesmo uma briga, uma discussão, um simples atrito. Aliás não tiveram nada.
Foi numa noite. Não tinha nada de especial. Nunca teve, muito menos no fato que se corria. A mulher continuava com o olhar perdido observando o marido indo embora. O olhava, mas não via...
O marido não disse nada. Ao voltar do trabalho, apenas decidiu arrumar a mala e ir embora. Cansou. Os dois se lembraram apenas de tirar as alianças e colocá-las sobre a comôda da sala.
Talvez essas tenham sido as atitudes de maior relevância naqueles dois anos de casamento. Nos últimos tempos, já não se falavam. Não havia novidades. Ficou...chato, quem sabe. Na verdade, não sabiam mais porque estavam cansados. Faltava algo.
Antes de partir porém, ele rasgou a foto - tirada no dia de seu casamento - ao meio e levou consigo somente sua própria imagem. Seria uma recordação, afinal, não era ruim ser casado com ela, se gostavam, mas ainda faltava algo. Se viam todos os dias, almoçavam e jantavam juntos, assistiam ao mesmo jornal das oito e dormiam e acordavam no mesmo horário. Entretanto, trocavam apenas monossílabos.
O ex-marido se acomodou no primeiro hotel que encontrou. Se deitou e tentou ler uma revista que tratava de futilidades.
A ex-mulher também se acomodou, mas na mesma cama de sempre e tentou dormir.
Foi então que começaram a pensar um no outro. Foi como um flash-back; as imagens dos momentos vividos pareciam inundar os quartos de ambos. Um vazio começava a ser preenchido. Pensava-se em tudo. Tudo aquilo que deixaram de fazer... por comodidade, talvez, medo de tentar.
Nunca fizeram nada de extraordinário. Nenhuma aventura, briga, traição, desconfiança, loucura, fantasia, um lugar novo, uma comida nova. Eram apenas. Como que para compor um quadro; dramático, por sinal. Os pensamentos foram embalando os dois e estes adormeceram um sono leve, confortante...
O sol nasce. Ele acorda e em sua cabeça uma idéia se arrisca: arriscaria ele começar tudo de novo?
A campainha toca. Ela abre a porta mas não parece surpresa ao vê-lo ali, de volta. Sentados no sofá trocam trocentas palavras a mais do que de costume. Finalmente, ele se arrisca. Momento de epifania. Balbuciam-se frases como "almoçar naquele restaurante árabe" e "passeio na praia ao pôr-do-sol". Então, lembram-se das fotos rasgadas, colam de volta e se prometem: "não mais como antes".


¬ P. Quintão

domingo, 6 de dezembro de 2009

o ser

eu sou menina-mulher, sapeca, correta

decidida, teimosa, responsável, duvidosa


carente por vezes, preocupada e amorosa 


às vezes convencida, às vezes mandona, às vezes trapalhona

romântica, feliz, chorona


simples, refinada, boba, palhaça


admiro inteligência, criatividade, exageros, novidades


cinema, pizza, beijos, conversas, caminhar na praia, jantar à luz de velas


simplicidade


música e chocolate


caseira


de opinião quase certeira

não gosto que duvidem de mim

gosto de palco, atenção, desenvoltura, loucura

vivo para o Deus Vivo

tenho medos, tenho Deus, tenho fé

tenho amigos 

sou família

acredito em milagres 

e que só Jesus salva

acredito em príncipes, sapos, paixão

acredito em dor e compaixão

tenho garra, marra, raça, sou flamengo

quero trabalho, salário, realização, satisfação

protestante, discordante, rebelião

sou talento, habilidade, dedicação

curiosidade, instinto, verdade, sedução

malícia, carícia

sou sinceridade

independente, valente, do amor somente dependente

sou barroca, puro coração




prazer,  sou Priscila Quintão



¬ P. Quintão

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

devaneios que a 6ª traz











O desespero toma conta de mim. Um trabalho final mal começado me espera às 11h da manhã. Eu me espero em uma cama quente com cobertor macio. E ele continua aqui, parado na minha frente. Ele nunca vai embora. Grita e eu não ouço. Ele é mudo e eu sou surda. Me deixei estar.

E já passa da meia-noite.



¬ P. Quintão


[quando eu ainda era iludida] - Impressões de um lugar

   Ao entrar em uma agência de publicidade situada em um edifício alto e de arquitetura moderna na Avenida Paulista, vê-se logo muita beleza, embora o clima seja de agitação e estresse. No ar, perfumes e cigarros de todas as marcas se misturam.
   A agência é ampla, ocupando um andar inteiro do edifício e dando a impressão de infinito. No lugar de paredes, vidraças, deixando a luminosidade entrar fortemente e revelando lá fora, concreto, agito e poluição. Somente olhando para cima vê-se um céu azul fosco e um sol amarelo tímido. O lugar é bem limpo, embora desorganizado e gelado por causa do ar-condicionado central.
   Por dentro há apenas salas e gentes, todos bem equipados. Nas mesas novas de vidro e mármore branco, espalhadas por toda parte, estão computadores, telefones, bilhetes, papéis, desenhos, canetas, cores. Trabalhadores incansáveis sentados ao redor das mesas gesticulam, mofam, criam. Em seus semblantes, cansaço e euforia; em seus corpos, roupas e assesórios de muito bom gosto. 
     Da rua vinha a cor concreto que escurecia a vista. 
     Por dentro eu via as cores na mais pura nitidez. 


¬ P. Quintão
    

as minhas coisinhas




E recolhendo textos para postar aqui me senti como Cazuza antes de morrer: "sinto que estou reunindo minhas coisinhas..."