segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Rotina [quase uma novela mexicana :p]



Não tiveram uma longa conversa que justificasse o fim. Nem mesmo uma briga, uma discussão, um simples atrito. Aliás não tiveram nada.
Foi numa noite. Não tinha nada de especial. Nunca teve, muito menos no fato que se corria. A mulher continuava com o olhar perdido observando o marido indo embora. O olhava, mas não via...
O marido não disse nada. Ao voltar do trabalho, apenas decidiu arrumar a mala e ir embora. Cansou. Os dois se lembraram apenas de tirar as alianças e colocá-las sobre a comôda da sala.
Talvez essas tenham sido as atitudes de maior relevância naqueles dois anos de casamento. Nos últimos tempos, já não se falavam. Não havia novidades. Ficou...chato, quem sabe. Na verdade, não sabiam mais porque estavam cansados. Faltava algo.
Antes de partir porém, ele rasgou a foto - tirada no dia de seu casamento - ao meio e levou consigo somente sua própria imagem. Seria uma recordação, afinal, não era ruim ser casado com ela, se gostavam, mas ainda faltava algo. Se viam todos os dias, almoçavam e jantavam juntos, assistiam ao mesmo jornal das oito e dormiam e acordavam no mesmo horário. Entretanto, trocavam apenas monossílabos.
O ex-marido se acomodou no primeiro hotel que encontrou. Se deitou e tentou ler uma revista que tratava de futilidades.
A ex-mulher também se acomodou, mas na mesma cama de sempre e tentou dormir.
Foi então que começaram a pensar um no outro. Foi como um flash-back; as imagens dos momentos vividos pareciam inundar os quartos de ambos. Um vazio começava a ser preenchido. Pensava-se em tudo. Tudo aquilo que deixaram de fazer... por comodidade, talvez, medo de tentar.
Nunca fizeram nada de extraordinário. Nenhuma aventura, briga, traição, desconfiança, loucura, fantasia, um lugar novo, uma comida nova. Eram apenas. Como que para compor um quadro; dramático, por sinal. Os pensamentos foram embalando os dois e estes adormeceram um sono leve, confortante...
O sol nasce. Ele acorda e em sua cabeça uma idéia se arrisca: arriscaria ele começar tudo de novo?
A campainha toca. Ela abre a porta mas não parece surpresa ao vê-lo ali, de volta. Sentados no sofá trocam trocentas palavras a mais do que de costume. Finalmente, ele se arrisca. Momento de epifania. Balbuciam-se frases como "almoçar naquele restaurante árabe" e "passeio na praia ao pôr-do-sol". Então, lembram-se das fotos rasgadas, colam de volta e se prometem: "não mais como antes".


¬ P. Quintão

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